terça-feira, 30 de agosto de 2011

E o espetáculo continua...


Jamenson, no Brasil, reforça a ideia do fim dos universais e o predomínio do singular, da performance. Até a arte sai do objeto como arte e se reduz(ou se amplia?) a um evento. Expôr-se é a palavra. Isso me faz notar no absurdo de não termos nos livrado nem melhorado, como humanos. Como em Roma, transformamos a luta, a violência em espetáculo e em fonte de riqueza material. Os lutadores ganham rios de dinheiro e a platéia, comovida, aplaude os socos no rosto. O nome disso agora é “esporte”e não se pode dizer nada contra. Afinal, “nossa, isso é antigo e chique há muito tempo nos EUA”. Pois é, desde Roma, que os imperadores agraciavam os súditos com a sua presença na arena.
É a espetacularização da violência, a performance de homens que se têm como valentes, fortes e esportistas!!! Caramba, homens fortes e valentes são os que lidam dia-a-dia para sobreviver, para manter o sonho, sem perder a ternura. Esses são os valentes e os fortes. Os que ouçam viver, apesar de todo o espetáculo da mediocridade da tal pós-modernidade.

Uma sensação de impotência...

Tento recapitular o que sei sobre avaliação. Julgamento, juízo de valor. Processo, caminho ou ponto de partida para tomada de decisões.É pela avaliação que buscamos o melhor, aprimorar um procedimento, redimensionar ações. Quando atrelada `quantificação, avaliar pode ser tornar mera classificação e então, a irracionalidade encobre o certo, o devido, o justo. No caso da Educação, avaliar como sinônimo de medição pode significar des-educação.

Escolas agora recebem notas. Pelo quê? Pelo número de processos administrativos, pelo número de aprovados-reprovados ...e o resultado disso se reflete nos holerites dos professores. Então, melhor calar, negar um fato, deixar de pedagogicamente discutir e ensinar alunos os percalços que às vezes eles mesmos provocam no espaço escolar. Que ninguém emita uma opinião, que os professores impeçam-se de trazer à aula o assunto que está no pátio, nos corredores, entre carteiras e alunos. E assim, dizem que estamos fazendo educação. Num Estado imbuído do todo poderoso Senhor da Avaliação é preciso o silêncio que consente o atroz, que sustenta o monólogo, que confere mediocridade ao papel do professor para a nota da escola seja mantida.
É...e dizem que estamos educando melhor, porque os professores, escolas e sistemas estão constantemente sendo avaliados. Resta saber que educação é essa, que sentido é esse de ser e estar professor. Por hora, apenas uma pesada sensação de que estamos sendo professores pela metade, estamos numa escola em ruínas.E mesmo assim, dizem que estamos fazendo educação.

domingo, 24 de julho de 2011

Caneta e papel... não mais necessários para o aprendizado da escrita?


Como dispensar caneta e papel, o pegar a caneta, entrelaçar os dedos, apoiar o pulso no apoio do papel....Traçar as letras, repetí-las e traçá-las uniformemente(ou não!). Escrever na linha, inconsciente calcular os espaços, colocar um ritmo, parar o movimento quando o pensar parece escapar. Reler o escrito e perceber que a mão corre mais que a palavra pretendida, engolir as letras, forçar a ponta e marcar o avesso do papel.

E o rabisco? Trocar uma palavra por outra, rasurando aquele pedaço. Ou simplesmente passar um traço em cima da palavra equivocada, mas deixando ali a sua marca para que saibam o que havia escapado pelos dedos.

E a caligrafia, não mais importa? Aprender os traços de cada letra, dominar o movimento preciso para se fazer um “a”ou um “s”. Escrever com a preocupação de ser entendido, lido e decifrado. Não mais se terá uma marca nesses traçados que nos fazem ser únicos pela letra traçada?

Pela perplexidade que me causou a notícia, devo estar ficando anacrônica, num tempo outro que não combina com essas manchetes. Reagi menos como professora e mais como uma apaixonada por letras, inclinações e traços.

Fico pensando que então, se as crianças de hoje não mais aprenderão a escrever usando papel e caneta, não saberão, mais tarde, o sabor dos bilhetes trocados com o amado que poderiam até dispensar a assinatura, porque a própria letra já seria a própria alcunha. Não mais reconhecerão o outro pela letra. Engraçado, sempre senti necessidade de conhecer a letra das pessoas. É uma maneira de apreendê-las um pouco mais. E agora, como será?

domingo, 17 de julho de 2011

Mais de mim....


Folhear antigas agendas, se deparar com velhas anotações de um tempo outro, em que meu corpo e meus sonhos estavam em outro lugar.Faxinar o vivido...revirar o tal baú-vida a partir de certas materialidades que, de repente, nos surgem. A menina que fui, o endereço que tinha, a letra ainda tremida dos primeiros passos dados como escrevente, como leitora, como alguém que começa a querer entender o mundo. Fico à procura do que sou naquilo que fui, do que ainda tenho em mim de um tempo em que não havia perdas nem dores reais. Cavo espaços, forço a memória e o que me vem é um álbum mal conservado de histórias que apenas se anunciavam, mas já repleta de lembranças. Ausências antes presentes, medos inexistentes e outros, tão inteiros em mim. Desfazer um espaço para construir outros, retomar o tempo, para continuar seguindo. Tarefas estranhas, silêncios imensos, chuvas torrenciais. É o tal tamanho da vida...às vezes feito de estreitezas, outras vezes, do tamanho do mundo.

sábado, 16 de julho de 2011

Ninguém sabe o tamanho da vida...II


E nem eu sei onde prá onde caminha o meu pensar. Por isso, apenas me deixo ir. Pensando ainda sobre a vida e seu tamanho. Sobre a pequenez que muitas vezes fazemos do viver, a estreiteza que as opções marcam esse baú feito de vida. Tamanhos minúsculos de um viver de labuta, de dores, de medos e de enganos. Tamanhos médios de vidas médias, cotidianas, feitas de trabalho e de algum prazer. Tamanhos imensos, de vidas intensas, de ar que falta numa imensidão de sentidos. Baús enormes, esbanjando alegrias; baús tão grandes quanto, derramando dores. Baús um pouco menores que carregam obrigações, que desperdiçam coragem e outros, menores, tímidos, compactos de medos.

O vida define o seu tamanho, aos poucos, pelas experiências, pela forma que inventamos de “estar-junto-com “ . Crianças modelam o que será o tamanho da vida, ajeitam com argila de exploração, com as possibilidades de mundo, com a amorosidade recebida que determina os arranjos de seu baú. Jovens redimensionam esse espaço, supervalorizam os lugares ainda vazios e acumulam desejos de ser, desejos de estar. Os adultos voltam a redimensionar o seu baú, escolhendo e re-escolhendo o seu percurso, investindo no instituído,buscando algum tipo de re-conhecimento deste estado de viver. Os velhos, ahhh, os velhos...Um baú gasto, vazios que se preenchem de lembranças, cantos desapegados de matéria. De longe, parece que o seu tamanho diminui, de perto, um baú expandido, feito de pedra e de água. Que se remodela permanentemente, que se cristaliza em seu entorno. Tesouro de sentidos, riqueza de detalhes, raridades nem sempre visíveis lá ficam em suas rugas, em seus passos lentos, em seus ouvidos seletivos.

O tamanho da vida? Sem régua, sem dimensão única.Tamanho impreciso.

“Ninguém sabe o tamanho da vida”


Foi assim que uma amiga terminou uma pequena mensagem para mim. Pois é, que tamanho tem a vida? Em termos de cronos, a vida tem uma duração, um limite e pode-se calcular a média desse viver cronológico. Mas, a vida, preenchida de Kairós, é misteriosa e por isso, instigante. Qual a dimensão do viver, qual o alcance dos encontros e das perdas? Qual o sentido da saudade e da paixão?Por quantas vezes pessoas passarão pelas nossas vidas? Há lugar para todas elas nesse caminho de vida? Das lembranças que ficam, há lembranças maiores ou menores?Dores mais fundas e dores equivocadas?

O tamanho da vida depende do lugar da morte nela. Da morte que espreita e que está a cada virada de esquina que damos. A morte que regula essa vida em tamanho.

Gosto de pensar a vida como um baú, aberto, escancarado que nos é oferecido para ali depositarmos nossas angústias, guardarmos nossos amores mais sensíveis, revirar reencontros, esconder desejos. Esse baú, tão sempre cheio de vazios a serem ocupados, de sonhos a serem realizados, de momentos para serem ainda vividos. Qual o tamanho do baú?Qual o tamanho da vida? Que fundo tem essa vida-baú que tudo cabe, que muito se perde, que algo se guarda com especial cuidado?

Fecho os olhos e penso nesse baú que está em mim...como o deserto está em Guimarães Rosa. Vislumbro-o revirado, desorganizado, avesso às gavetas e aos dispositivos organizadores. Mexo e remexo nele procurando o que não sei, deixando escapar o que me seria útil, mas pouco prazeroso. Vou nele para me reabastecer de....vida. Vida-baú que de tão aberta, torna-se inescapável a mim. Sim, há cantos meio escuros, outros pontos sem centro que me fazem ir por onde quero ou vou à esmo, tateando lugares, revendo espaços des-ocupados. O seu fundo inatingível, as perguntas que não serão respondidas...à espera de seu fechamento. Que não feche, que fique, que se embaralhe cada vez mais e que o colorido predomine sob o cinza de alguns dias. E assim, alma acolhida e refeita, meu baú vai aumentando...que tamanho tem a vida?

domingo, 10 de julho de 2011

O peso de ser ficção...


James Ellroy , João Ubaldo Ribeiro e outros...desconversam sobre literatura, e exibem sobre o seu modo de ser, de viver e se esforçam para se mostrarem excepcionais, com idéias loucas e pouco usuais, como se isso os fizesse especiais.Não, escrever bom texto, apresentar tramas bem armadas, fazer bom uso das palavras não podem ser suficientes para autorizar escritores a se mostrarem tão desdenhosos com a própria literatura e tão generosos consigo mesmos, principalmente quando se esforçam com uma disfarçada displicência. Melhor eles se apresentarem para nós apenas por meio do que escrevem....e que cada leitor construa a imagem do escritor que nos apraz. Que o feio, o arrogante, o covarde e o sarcástico que existem neles, fiquem ali, escondidos, esquecidos. Que deixem para nós a sua Literatura apenas. E que a Flip não se resuma a cultos personalísticos, mas à discussão e cultivo de idéias e de conceitos.Flip como espaço do sensivelmente compartilhado, mais do que lugar de exibicionismos que empobrecem e rasuram a Literatura. Não quero ouvir e nem ver meus autores preferidos. Melhor degustá-los pelas palavras que escrevem e pelos sentidos que eu, como leitora, deposito nelas.

domingo, 12 de junho de 2011

Dias de enamoramento...



O relógio bate meia-noite me lembrando que o aclamado Dia dos Namorados acabou. Ufa!!! Assim, não tenho que sentir que a data não diz respeito a longos casamentos. De repente, é data apenas para ser lembrada, percorrendo amores antigos que deram certo no passado. Dia dos namorados se finda agora com o sino da igreja que chega até minha janela, anunciando a entrada de uma segunda-feira de trabalho. E aí, como foi seu dia dos namorados? Uma amiga, espirituosa escreveu numa rede social que não tem que estar com índio, porque é dia de índio...e não tem que ter namorado, por causa da data também. Rindo, percebo que muitos adoraram a justificativa dada, como forma de escamotear o medo da solidão, a sensação de desamparo que viria neste dia. Pois é. Olhar para os lados, ler manchetes de revistas e jornais, acompanhar Fantástico e Domingo Espetacular são ações inescapáveis de domingo. E, em particular, neste, muitas histórias de amor foram contadas, músicas recantadas, olhares de filmes sessão da tarde. E é então que a gente se percebe meio fora do lugar, procurando o pedaço que falta, buscando as razões comerciais e as bobagens do mero consumo. Mas, na verdade, há uma ditadura da data que nos provoca a esperança de um presente, a certeza de alguma surpresa. Mesmo que faltem minutos para terminar o dia. E o presente não vem e nem a surpresa aparece. Que a gente aprenda a redesenhar as relações e fazer do namoro a relação que melhor nos encante, que mais nos enleve, que nos aqueça de alguma forma. Pode ser o encantamento por uma idéia, a firmeza de um sonho, o sutil traço de um caminho a seguir. Que algo nos provoque desejos, que alguma coisa nos desperte paixão, que o ofício que exercemos seja sagrado em toda a sua profanidade cotidiana.
Enamorar-se significa manter o encantamento, sentir-se tocado pelo outro. Que seja assim não apenas numa data marcada em calendário e tornada peregrinação em comércio. Que seja compromisso diário de quem vive amizades, de quem compartilha sonhos, de quem mantém a esperança em dias melhores. Que os sinos que ouvi sejam de anúncio de dias que comportam a semana. Dias de enamoramento, de encantamentos nos pequenos gestos, nas ações diárias de seres apaixonados pelo viver.Feliz dias de namorados!!!!

domingo, 5 de junho de 2011

Sobre Patrimônios Imateriais...



Sotaque da Mooca, jeito simplório de um mineiro, a ginga de um carioca, a musicalidade de um baiano. São modos singulares e únicos de se ser, de viver e que demonstram a diversidade bem-vinda de brasileiros. De repente, pela fragilidade de nossa memória e história, tornam-se “patrimônios imateriais”de nossa cultura. Uma maneira de preservar tais singularidades, um modo de apontar o quanto esses elementos são importantes para o nosso conteúdo e identidade culturais. Declarados patrimônios imateriais como cerca que tenta proteger a investida de modos globais de viver, destituindo o “único” que nos habita como brasileiros que somos. Não concebo, porém que estas declarações e decisões de uma política cultural, garantam a legitimidade dessas singularidades. O que legitima modos de ser, é o espaço conquistado, o espaço social garantidor desses modos de ser e de viver. Que a pasteurização fique longe, que os modismos não subtraiam as manifestações que singularizam um povo. Mais que patrimônios imateriais, são elementos constituintes de uma identidade que se conserva e se atualiza pelas ruas, pelos campos, pelos lugares de convivência entre diferentes.Isto é Brasil,uai sô!


Bombeiros e professores, vozes que não se ouvem, ofícios imprescindíveis. Como imaginar, aos modos de Ivan Illich, uma sociedade sem escolas e espaços urbanos sem o serviço dos bombeiros? Como conceber uma sociedade onde inexistem professores e bombeiros?Ambos, em suas especificidades, são importantes na medida em que traduzem um sentido de segurança às pessoas, de alguma certeza de que ainda é possível a convivência e a sobrevivência num mundo tão sedento de sentidos. Professores e bombeiros carregam consigo o símbolo do cuidado, da aposta na vida humana, no amparo às pessoas. Corpos que são salvos de dores, de aniquilamento. Almas que evitam o resfriado pelo cultivo de saberes. Profissões que deviam ser reverenciadas por qualquer dirigente, valorizadas e respeitadas pela diferença que fazem no bem-viver comunitário. No entanto, cenários atuais(ou de sempre) apontam o descaso e um tratamento ignóbil a estes dois segmentos preciosos de nossa sociedade.
Algo está de cabeça prá baixo, algo está fora de lugar. Será nosso juízo? Será a inversão de valores que esfrega estranhamentos em nós? Serão o exercício de poder e as picuinhas políticas que encobrem posturas ainda ditatoriais no país?
Como professora e como cidadã registro aqui minha indignação à forma como a sociedade(e somos todos nós!) (des)cuida de profissionais raros, imprescindíveis. Profissionais que merecem um salário suficiente para continuarem sua missão de segurança e amparo aos milhões de outros cidadãos. Que sejam respeitados, que sejam ouvidos, que sejam valorizados!

sábado, 4 de junho de 2011

PARA ALÉM DE UM GRUPO DE PESQUISA...UM ESPAÇO DE AFETO



Seria esperado que este texto retratasse a dinâmica de um grupo de pesquisa, a construção cuidadosa dos caminhos de uma investigação feita de maneira coletiva e democrática. Entretanto, sobre esse movimento investigativo, dialógico e coletivo artigos já foram publicados, elementos evidenciados e devidamente compartilhados em espaços formais de periódicos na área da educação.
Aqui, a proposta é refletir e registrar acerca de um grupo que se constitui afetivamente e preenche seus espaços de entre-pesquisas, em espaços de encontro com o outro. Palavras não apenas usadas para referenciar idéias, mas palavras que carregam o significado das pessoas, de suas histórias, de sua caminhada ao longo de tantos anos de trabalho em conjunto.
Por isso, ao pensar nesse grupo, esse texto se propõe a apresentar o intangível de sua produção nesses anos de pesquisa. Desde 2005, um grupo foi se formando com o objetivo de investigar , sob a batuta de Mere Abramowicz , questões atuais de currículo, tendo como foco as políticas públicas. Educadores, estudiosos e fazedores de educação, homens e mulheres que tem na PUC de SP o espaço de continuar seu vínculo, fortalecer seus saberes e demonstrar sua fecundidade teórica sobre currículo. São mestrandos, doutorandos e doutores que se reúnem mensalmente, mas que se articulam todo o tempo por meio de email de grupo para agilizar produção, conferir dados, compartilhar resultados parciais de pesquisa e para também, se desvelarem ultrapassando as próprias pesquisas em andamento. Eis o intangível, o que ultrapassa as formas da academia e do rigor epistemológico. O rigor que se construiu nesse grupo relaciona-se com o amparo e cuidado que todos têm com todos. O rigor das relações trabalhadas, dos afetos de bem-querência que surgem nas dificuldades, nas dores, nas perdas que ocorrem no decorrer dessas vidas tão singulares e diferentes, mas tão próximas na amorosidade e no respeito.
Um grupo constituído por pessoas que trabalham, pensam e vivem a Educação e, por isso, revestem seus contatos, seus recados, seus abraços e seus sorrisos em vestimentas de educadores. Porque, a cada email enviado, há um retorno efetivo de um, dois ou de todos os outros membros do grupo, respondendo, acarinhando, amparando a angústia, subvertendo a dor que se apresenta, respaldando incertezas, sorrindo com os sucessos de tantos. Há o mais tímido, o mais calado, mas mesmo esses, pelo silêncio, mostram a atenção e a cumplicidade. Há os que respondem , às vezes, tardiamente, e demonstram que mesmo assim, estão atentos ao grupo. Há os que são econômicos nas palavras, mas estas vêm fortes e precisas a quem se dirigem. Há os que poetizam o viver e tornam nosso e-group um espaço de beleza infinda. Há os que notificam suas dificuldades,traduzem momentos trágicos e nos alegram quando retornam inteiros e esperançados. Há os que, algumas vezes, se sentem invisíveis, e ao se sentir assim, se deixam dizer sobre essa sensação porque sabem que serão aceitos até em seus ímpetos de carência e de pedidos de socorro. Claro, deve haver algumas antipatias não ditas.Mas, até elas se relativizam diante do cotidiano da pesquisa e do movimento constante do grupo. Pois é, este grupo é assim.
Um grupo registrado no Cnpq, que muito produz. Artigos, livros, trabalhos em anais nacionais e internacionais, capítulos de livros. Porém, um grupo que vai além da lógica atual da pesquisa no país. E, exatamente por ir além dessa lógica produtivista dos órgãos governamentais, mantém sua vitalidade acadêmica. Ousadia dizer(e já ousando porque o grupo respaldará isso!) que o que sustenta o grupo ao longo desses anos não é o interesse pela pesquisa, mas o interesse pelas pessoas. Porque somos educadores, porque precisamos ser melhores para sempre melhorarmos nossas práticas educativas. E estar nesse grupo é um exercício permanente de aprender a ser melhor. Melhor na palavra escolhida, melhor na maneira de ouvir e dizer, melhor na delicadeza dos encontros de idéias nem sempre iguais, nem sempre as mesmas. Exercício de um estar-com, riqueza da oportunidade que as diferenças nos permitem reconhecer realidades diversas, de Estados e Municípios outros e que demonstram a complexidade do educar e dos desdobramentos que tais cenários trazem para a pesquisa. Pois é, este grupo é assim. Grande, amorosamente talhado na maneira de ser e de fazer educação de sua líder, que como educadora, nos acolhe e nos sustenta. Num movimento sutil, vamos aprendendo também a acolher e sustentar idéias e principalmente, pessoas. Pois é, este grupo é assim.

terça-feira, 31 de maio de 2011



Continuando o assunto... pensando em termos de currículo, o que os alunos apreendem e aprendem ao perceberem seus professores alijados do cardápio da escola? Como vêem o professor que não pode se sentar junto com eles, partilhar a comida, repartir o pão? Será que olham o mundo cindido e percebem que há desigualdade até na escola? Lugar de aprender, lugar de abertura de novas janelas, qual a paisagem que é apresentada aos alunos? Lugar de exclusão de professor? Escola feita de alunos com professores como meros coadjuvantes? Que mundo escolar está sendo construído? Há nessa proibição uma violência silenciosa que fere profundamente o que ainda talvez reste ao professor de alguma certeza de seu papel, de sua importância e responsabilidade na formação das novas gerações.
O que efetivamente está implicado nesse absurdo? Discursos que não traduzem as práticas de gestão. Escola como um não-lugar de professor. Alimentos para uns. Corpos negados. Mesquinharia e ignorância. Não reconheço a escola que me foi apresentada nessa conversa de professor. Desejaria que fosse mera história, completo engano. Gostaria que não fosse verdade, que me dissessem que é pegadinha, que os professores fazem suas refeições junto aos seus alunos, que o Estado garante esse direito aos seus tão mal-remunerados profissionais da educação. Que me acordem desse pesadelo, por favor!!!!

Dignidade aos professores!!!



Conversas de professor. Não apenas compartilhando-as na rádio, mas garantindo-as nas aulas. E foi num desses bons papos, muitas vezes, por meio de teóricos que pensam a educação e o currículo, que um cenário se apresentou. Aos poucos foi sendo desenhado, tomando corpo e indignação em mim. Como é possível as escolas proibirem seus professores de fazer suas refeições na própria escola? Que lógica é esta que desconsidera, nega corpo, saúde e necessidade de alimento dos professores? Que lógica é esta que despreza a presença do professor como parte e sujeito do processo educativo? Como exigir competência, compromisso e práticas decentes dos professores, se eles se percebem não-sujeitos da rotina de refeição da escola? Em algumas escolas, nem esquentar suas marmitas pode o professor. O que se desvela deste cenário? Afastemos as cortinas! Há nisso uma mensagem. Como um quadro de recados, o que se avista é “o que importa aqui é garantir alimentos para os alunos e só existe verba para eles. Os professores, coadjuvantes, não podem ser contabilizados nesse gasto em alimentação”. Junto a essa mensagem, podemos vislumbrar equívocos que colaboram com a desvalorização do magistério, com o desrespeito pelos professores apregoado em notícias diárias. Se nem em seu locus de trabalho o professor se percebe e se sente dignificado e cuidado, o que dizer ou esperar em termos de outros alimentos, menos palpáveis, intangíveis que preenchem a alma dos que ensinam?
Não adianta jingle em televisão clamando pelo valor e importância do professor, se as políticas públicas de gestão educacional não atentarem para o necessário cuidado para com os profissionais que garantem o funcionamento de suas escolas. Dignidade aos professores é o que devemos exigir!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

EDUCAÇÃO EM TEMPO DE FLUIDEZ...



Segundo Bauman, na contemporaneidade, um conjunto de evidências apontam para um tempo de paisagens provisórias nas relações humanas e no uso dos artefatos tecnológicos.Relações tornam-se mais leves, talvez superficializadas em momentos e corpos. Artefatos são descartados para que o modelo mais atual os substitua. E assim, vamos deletando pessoas, coisas e substituindo o velho pelo novo permanente. E a educação, nesse contexto de mundo líquido, em que as coisas e as pessoas passam por nós? Como a educação de configura numa era em que a fluidez também está na informação, rápida, superficial e abundante?
Como um colunista expôs há alguns anos, vivemos sedentos de conhecimento e saturados de informação. Nunca antes tivemos tantas possibilidades de saber o que acontece em lugares distantes, com pessoas tão diferentes e mesmo de outros tempos. São informações. Mas como transformar estas informações em conhecimento que faça sentido, que produza significados, que chega à raiz das coisas? Um lugar, a escola, ainda pode se constituir o único espaço possível para salvaguardar essa possibilidade de tratar a informação e cuidadosa e criticamente transformá-la em conhecimento.
É preciso que a escola resista às investidas desse caráter fluído do mundo que opera tempos e espaços outros. Por isso, a escola deve resguardar o direito de continuar-sendo o que sempre foi. Um lugar em que o silêncio, o bem-pensar sacralizem o diálogo e o encontro com os grandes pensadores do mundo. Escola que propicie redesenhos de identidades, que garanta o encantamento que o saber construído e reelaborado proporcionam ao ser humano. Escola de encontro de gerações que ousem a diferença, sujeitos que desconstroem certezas advindas do não-saber.
É preciso que o giz possa apagar as fórmulas, que as carteiras facilitem a mobilidade dos corpos, que o professor seja a referência para orientar o pensar e o descobrir. É preciso que a linguagem seja preservada e cuidada, que a emoção esteja também presente, que as mãos trabalhem as letras, que os olhos trabalhem as imagens e que todo o cenário seja um modo de resistir.
E, ao se resgatar a escola em sua perenidade, estaremos optando pela mudança deste lugar, pela resistência de continuar- sendo num mundo de fluidez.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Porque somos ainda sujeitos...



Rever pessoas, perceber seus movimentos diários e suas palavras tão próprias e sempre anunciadas.Um grupo de pesquisa nada previsível e por isso, tão enlaçado nestes anos todos. Num tempo de liquidez(em Bauman), a educação ainda resiste. Como foi dito, a morosidade dos processos de mudança na educação é uma forma de impedir a dispersão dos saberes, o desmanche das práticas seculares que ocupam os espaços escolares. É preciso mudar!E mudar, nesse momento, talvez seja mesmo continuar igual.E resistir!Pacientemente, sendo, apenas sendo escola. É preciso continuar.Como decisões que estabelecemos sem a certeza de sua eternidade, mas com a sensação de que, de alguma maneira, serão sim eternizadas em nós.

E mais uma vez, São Paulo...



Chuvas, batidas de carro, trânsito lento. Mesmo assim, sinto a cidade generosa comigo.Ali, entre estranhos, gosto de me sentir também uma estranha e me aventurar em passos de desconhecida. Mas, mesmo em sua imensidão ainda é possível virar uma esquina e se reconhecer em alguém que também ali está experimentando os mesmos espaços do anonimato. Isso me faz pensar nas trajetórias que escolhemos, nos rumos que tomamos por convicção ou nem tanto, mas que foram tomados e assumidos. Como currículo, como uma pesquisa projetada, como dados já colhidos. Como andar pela imensa SP, é assim também o percorrer uma pesquisa, uma reflexão. Surpresas que chegam, impactos que nos exigem novas lentes. E assim vamos dando conta de nossos projetos e de nossas reflexões. É preciso reconhecer o que vira a esquina.

domingo, 24 de abril de 2011

Passagem...



Renovar, ressuscitar, ressurgir. Significados do dia na palavra “páscoa”. O equívoco ou ilusão da morte, a certeza da continuidade, a volta. Vem-me a imagem de vulcão, aparentemente quieto que, de repente, solta suas lavas, espalha sua quentura e refaz os movimentos ao seu redor. Como Cristo, em seu exemplo de morte, porque de vida, se refaz inteiro e resignifica o viver de tantos. Páscoa é data, é ritual, é tradição. Mas Páscoa também simboliza o renascer, a refeitura de promessas, de sonhos, renovação de buscas. Uma passagem entre o antes e o depois e esse depois, ainda por vir, chegará com gosto de chocolate, de doce como para firmar a vontade que a vida se torne doce ou que possa ser adocicada sempre.




Páscoa é oportunidade de ressurgimento daquilo que não foi, do que aparentemente acabou. Que ressurjam os sonhos, que acordem as paixões, que os passos sejam retomados, que os caminhos se refaçam, que as luzes clareiem os cantos escuros e que as ondas voltem e quebrem na praia, em ritmos diversos. Que haja o renovar, o ressuscitar, o ressurgir do mesmo, porém, diferente em nós. Que os sonhos, os passos, as paixões retornem sempre.Que venham e se renovam os dias iguais, em suas diferentes manhãs.Que nós nos renovemos sempre para sermos o melhor que pudermos ser.




Que este domingo seja dia de desejo de travessia para lugares de afetos, de mundos compartilhados, de amores preservados. Feliz Páscoa!!!

domingo, 17 de abril de 2011

Desterritorializando a identidade...



Laerte, o competente senhor dos quadrinhos diários de jornais brasileiros resolve assumir modo de vestir, de se expressar femininos. Sim, de repente, ele se travestiu e publicizou seu desejo pela roupa, pelos acessórios, pela maquilagem. Interessante a coragem desse movimento transgressor de um homem que se apresenta mulher e vive como mulher, após anos de uma vida tipicamente masculina.Transgredir os limites, ir além do tradicional e do costume.Se permitir sair do conforto de ser e reterritorializar-se em outro gênero identitário. Continua sendo o mesmo, porém outro, em outra roupagem. E os seus dizeres acerca dessa experiência e dessa opção. Da delícia de ser mulher, de ter que se cuidar mais ao sair, da vaidade instalada e assumida.




Fico pensando nas opções que se tem hoje de se ser e de não se ser.Seja lá o que for, há a possibilidade do mutável e a identidade, provisoriamente (im)posta se desterritorializa e se refaz em outros espaços existenciais resignificados. Homens e mulheres, travestidos, itinerantes e provisórios. Chamam isso de modernidade líquida? Pós-modernidade? Modernidade tardia? Sem rótulos, num tempo de identidades nômades.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Professores no cyberespaço....


“Nunca o professor teve tanta chance de ser fundamental como mediador de informações dispersas”. É Marcelo Tás falando de professores e acerta ao afirmar que o computador é uma ferramenta de comunicação e deve ser explorada como tal. Penso que o computador é ferramenta de comunicação e de compartilhamento. Por ele, podemos, como professores, disponibilizar informações, exemplificar conceitos, encontrar aprendentes com vontade de saber. E, conforme nos alerta Ronaldo Lemos, surgem as denominadas “novas economias culturais” que são outras formas de circulação de culturas que podem ser detectadas pelo movimento das “periferias”que fazem remix, por exemplo, de músicas e imagens. São novas ferramentas digitais que promovem criações coletivas. “Compartilhamento é a própria natureza da criação”(Gilberto Gil) e o professor deve mesmo se apropriar dessas ferramentas para promover aprendizados coletivos, descobertas e cumplicidade na construção do conhecimento. Que a escola seja o chão de um modo efervescente de criação, de reconhecimento das verdades provisórias e de outras, que serão elaboradas. Não cabe nesta nova economia cultural a aridez dos saberes, as cópias sem fim, as obviedades dos conceitos. No novo cenário de educação, é preciso transgredir os espaços, utilizar vários tipos de texto para estabelecer o diálogo e facilitar a descoberta, outros pensares e possíveis novos caminhos epistemológicos. Somos, como professores, fundamentais na circulação de culturas. O que estamos esperando?

Bem-vindo...